"até parece máscara, ópera, víbora
mas é só você que tem o dom de me enganar
me seduzir, me desdobrar, de me cuspir
só pra me obter
metade homem, metade omisso
uma parte morta, outra parte lixo
o teu cheiro, a tua trama, a tua transa
hoje eu não vou querer"
Acordei precisando vomitar. Precisando... e querendo. Foi a luz da janela meio aberta que me despertou. Foi um sonho que eu tive. Foi a noite de ontem e os seis meses que passamos juntos. Cambaleei até o banheiro num caminho sem fim, e por mais que eu desse passos largos, não alcançava o vaso sanitário.
Eu, um espetáculo teatral. Uma ópera triste, um texto dramático, uma obra expressionista. Ele me pôs num campo de concentração. Me transformei em uma coisa que eu nunca quis ser. Fiquei obsessiva, amarga, doente. Andava perdida em minha própria casa sem saber o que eu estava fazendo. Me esqueci que existiam outras milhões e milhões de pessoas no mundo. Eu só via ele, eu só queria ele.
Aos poucos eu percebi as minas no meu caminho. Algumas vezes eu só ouvia elas explodirem, não sabia que eu estava em pleno campo de batalha. "Deve ser ali do lado", eu pensava enquanto acreditava que aqueles rompantes iam passar. Precisei pisar na armadilha e me machucar para perceber que o problema estava ali, do meu lado do quintal.
Braços quebrados, joelhos esfolados, sexo apodrecido, olhos secos, coração despedaçado. Foi assim que eu me encontrei ao olhar através do espelho. Quem era aquela mulher? Eu envelheci? Eu fui atropelada? Eu ouvia pessoas me gritando lá fora, mas não conseguia assimilar nada.
Finalmente consegui chegar até o vaso sanitário. Me atirei no chão, abracei-o e da minha boca jorrou tudo o que estava sendo cultivado dentro de mim durante tantos meses. Eu não podia parar de vomitar. O gosto amargo. O veneno que percorria as minhas veias saindo do meu corpo. Caí sobre o vaso exausta.
Quando abri os olhos (pela primeira vez em meses), eu estava sozinha e livre. Ele havia me deixado.
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